Leio com afinco o romance de Paulo Lins, Cidade de Deus. Não é o filme, não é o bairro, que não conheço, é outra espécie de viagem, outro tipo de encarnação literária. É algo que permanece num estado de tempo que não conhecemos. Estado, tempo, fotografia – são palavras estranhas que juntas talvez façam algum sentido no momento da leitura.Estou doze anos atrasado numa consideração sobre Cidade de Deus, o romance-poema de Paulo Lins, adaptado para o cinema pelas mãos e olhos atentos de Fernando Meirelles. Qualquer interferência crítica só poderá ter efeito em meus contemporâneos que não leram o livro. E, de qualquer modo, nem ainda acabei de ler o primeiro capítulo. E já basta. Há livros que não merecerão ao menos a leitura da primeira linha, sob pena de ficarem esquecidos nos piores sebos da cidade – jamais queimados, vejam bem, jamais queimados.
O olfato é o sentido que me guia pelo livro. É o cheiro das vielas podres, dos campos de barro, do sangue, dos anos setenta, dos anos oitenta, cheiro de ditadura, cheiro de Brasil, o cheiro que queremos apagar com perfumes importados comprados em zona livre de aeroportos. A capa da minha edição, que exponho aqui, é a de um barracão saltando aos olhos, abrindo caminho por entre as lacunas da memória e da imaginação. Somente um incômodo: inevitavelmente desenhamos em nossa cabeça os personagens como são os atores da película. Paciência. Mas, ainda assim, uma delícia. E digo mais, para logo terminar esta pendenga: depois de ler Os Sertões, Grande Sertão: Veredas, Abusado, Elite da Tropa, e Meu Casaco de General, ponho as minhas Itaipavas para gelar, minha tacinha da Bohemia e foda-se, só sendo um pouco burguês e um tanto bêbado para encarar mais um soco no estômago. Cidade de Deus é aquele livro que o carioca lê como se fosse um discípulo da Opus Dei, e, então, acho que me fiz entender. Ou não?

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